Páginas

30 de dez de 2012

Ciclos de ilusões...



========================================================

E na minha própria ilusão de um ciclo que se encerra para um ano novo que se inicia, desejo ir além em minha própria autonomia. Quero ser mais livre, quero desconfiar e me indignar das ilusões que colocam à frente de meus olhos; quero exercer a infinitude de meus pensamentos para ser capaz de lançar às friezas e augúrios da existência rotas de mudança. Quero, mais que tudo, compreender que já há ilusões por demais para que eu me permita seduzir por um ciclo de ilusões que me aprisionam e me fazem desconhecer o que sou e o que de fato desejo ser...   


========================================================


Ciclos de ilusões... 

Cai a chuva lá fora, serena e fria. O ar abafado de verão que trazia suspiros longos e suor se dissipa e dá lugar a uma brisa fresca que acalenta a agitação quase natural dos últimos dias do ano. Todos continuam vivendo suas vidas, de forma que a realidade segue seu fluxo em um ordenado caótico, permeado por uma falsa sensação de constância. 
É o fim de mais um ciclo, mais um ano que termina diante de nossos olhos, deixando para trás a memória de tudo que foi sentido. Novamente nos vemos sob a face de algo que se apresenta como novo: um novo ano, uma nova vida, nós mesmos sendo coisas novas no tempo e no espaço. Se repete o ciclo de ilusões onde está imersa a humanidade, em seus dilemas e quimeras tão complexos, admiráveis ou repugnantes, mas tão somente humanos. 
Ilusão. Somos exatamente humanos por sermos capazes de cria-la e vivê-la. Assim avançamos e, gradualmente, fizemos sobre ela a base de nosso mundo e seguimos mantendo-a mesmo após milênios de avanços. Contamos os dias, horas, minutos, o tempo... Mesmo sabendo que não sobreviveremos e resistiremos a ele, ainda assim nos agarramos à ilusão de que possuímos algum controle sobre o mecanismo de todo o universo. 
Tais apontamentos poderiam parecer demasiados pessimistas, mas são somente um ode à necessidade de nos atermos a como nos tornamos escravos e servos cegos dos ciclos de ilusões criados ao longo da humanidade. A questão inconveniente é que passamos a viver na ilusão da ilusão.
Parece confuso? Talvez seja, e, imagino, o é! Verdadeiramente é complexo por demais imaginar que em nosso mundo simbólico de convenções fomos capazes mergulhar ainda mais fundo no irreal e sem sentido para criarmos ainda mais ilusões e enganos a nós mesmos e à nossa razão. 
O problema não está em contarmos o tempo e vivermos a finitude que nos é natural com sentimentos de infinitude e resistência. É menor a questão que nos impulsiona a celebrar aniversários, competir ou trocar calendários diante do que há em nós que, nestes momentos, geralmente nos afunda em absurdos.
Com o término de um ano e o início de outro, em termos reais, nada muda. A sociedade segue seu fluxo e as pessoas levam suas vidas basicamente do mesmo modo. Passadas as festas e celebrações todos voltarão a ser o que são, às vezes com a diferença de estarem iludidas de si mesmas de que tudo será diferente, de que serão diferentes, o que considero lastimável! Geralmente isto ocorre pela nossa estranha capacidade de mentirmos para nós mesmos e crermos, distorcendo a realidade a ponto de tais mentiras se mostrarem verossímeis. 
Diante de tais apontamentos não pretendo desprezar os desejos de planejamento e as vivências que se movem em nosso ser ao fim ou início de ciclos. Isto faz parte da ilusão que nos humaniza. Minha lógica é simplesmente a da realização de uma reflexão pautada na solidez da realidade, que efetive em nós um processo de autonomia que se faça constante e passível de revisão na mesma ou maior proporção, isto não somente no término dos calendários, mas em cada dia a ser vivido até o findar da existência. 
Não é preciso esperar o ano novo para compreendermos ou nos arriscarmos à compreensão de nossa inserção nesta sociedade ou na existência das pessoas à nossa volta. Além disto, poderíamos aproveitar muito mais este impulso do findar e iniciar de ciclos para traçarmos metas um tanto mais dignas de nossa própria humanidade. Por que não fazermos promessas de nos indignarmos mais com a desigualdade, consumismo ou com as injustiças sociais? Poderíamos refletir pautados na esfera da realidade, mas nosso momento de ilusão serve para criar mais e mais ciclos de ilusões que distorcem o que nos cerca. 
E assim terminaremos mais um ano com promessas vazias e enganos. No novo ano as igrejas continuarão lotadas de pessoas desesperadas que buscam esperança e soluções imediatas e recebem mentiras de estelionatários que se usam de sua fé para o lucro; as esquinas estarão repletas da famintos mendigando o que sobra na mesa de uns poucos abastados, que sentem o êxtase de sua própria riqueza; a mídia seguirá manipulando as massas e usurpando delas seu exercício de autonomia; os conglomerados industriais continuarão convencendo a todos de falsas necessidades e venderá ainda mais absurdos em produtos e serviços; os políticos e governos seguirão mentindo e nos anestesiando da realidade e seus seguidores insistirão em repetir seus discursos oficiais vestidos de números e despidos de humanidade; se entrelaçarão enganadores e enganados, fieis e traidores, covardes e ousados, céticos e religiosos, homens e mulheres, jovens e velhos, todos tecendo a trama deste ciclo de ilusões que é feito de novos anos velhos que se repetem. Tudo isto pois não nos permitimos promessas efetivas de novos ciclos, por fazermos de nossas promessas de ano novo um potente anestésico que nos dá a falsa sensação de prazer em meio à força da realidade. 
E na minha própria ilusão de um ciclo que se encerra para um ano novo que se inicia, desejo ir além em minha própria autonomia. Quero ser mais livre, quero desconfiar e me indignar das ilusões que colocam à frente de meus olhos; quero exercer a infinitude de meus pensamentos para ser capaz de lançar às friezas e augúrios da existência rotas de mudança. Quero, mais que tudo, compreender que já há ilusões por demais para que eu me permita seduzir por um ciclo de ilusões que me aprisionam e me fazem desconhecer o que sou e o que de fato desejo ser... 
Feliz ano novo! 



Escrito por Edward de A. Campanario Neto



===============================================
"Desejo que seu novo ano seja repleto de indignação."
=============================================== 


Um comentário:

Eugênia disse...

Querido Edward,
Gostei muito do seu texto que, como sempre, reflete tão bem o seu aguçadíssimo senso crítico da realidade.
Concordo plenamente com você quanto a estarmos atentos e indignados com o lado mais sórdido dessa sociedade consumista e vendedora de ilusões inúteis e alienantes. Mas, sem maiores aprofundamentos, gostaria de lembrar do reverso da situação, ou seja, do quão necessário se faz a presença das ilusões e do simbolismo dos rituais comemorativos para que os indivíduos e a sociedade não enlouqueçam. Então, para que não morramos de uma overdose de realismo, paremos na passagem do ano para brindar as possibilidades de um recomeço, mesmo sabendo que nada vai mudar sem a nossa plena vontade e sem muito trabalho, e que poderemos mudar em qualquer dia comum do ano ano que se anuncia! Mesmo assim, meu mais jovem e querido amigo, um brinde à chegada de 2013! Que ele nos traga, junto com essa dose grande de indignação, a vontade e a alegria, também necessárias, para a construção de um tempo melhor para todos!!! Feliz Ano Novo!!! Parabéns por esse belo texto! Bjs!

Eugênia Dias