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27 de set de 2015

A deusa da Dúvida


  
A dúvida é o maior deleite dos seres humanos
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    Sem saber exatamente por que, seguimos àquela sina arrebatadora. Enfrentamos cotidianamente as dores de parto de nossos renascimentos e a morte daquilo de nós que fica para trás a cada passo da jornada. Nossa verdadeira esperança é ter alento de que a primazia da dúvida nos confere um princípio de liberdade na construção de nossa própria identidade e lugar no mundo. Como uma deusa bondosa a Dúvida sempre nos estende as mãos e nos olha de forma terna.
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A deusa da Dúvida

Diariamente somos impelidos por um desafio que nos lança e nos introduz no tempo. Uma sina que arrebata todos os esforços pela busca da construção daquilo que produz os sentidos que nos acomodam na existência. Nos encontramos vagando em um mundo confuso cuja realidade não proporciona respostas facilmente compreensíveis, sendo que muitas delas sequer se fazem possíveis.    
   A vida caminha sob o fardo da dúvida em seus momentos de deleite ou exasperação, de forma que somos eternos prisioneiros da dúvida, já que a certeza é uma palavra que, por si só, poderia ser traduzida por engano. Por bênção ou castigo dos deuses, do destino ou do acaso, a cada dia somos moldados pelo desejo, pela busca do encontro de nós com nós mesmos. Muitos eus em tempos e lugares se perdendo na vastidão. 
   A bem da verdade, há em nós um quê de inveja da ordem que parece existir no mundo físico. Possuímos, em algum lugar, uma centelha que clama pela constância que se materializa nas coisas, aparentemente tão estáticas e nós, tão cíclicos, calendários sem dias, meses, anos, completamente imprevisíveis e indecifráveis mediante os sabores e dissabores da vida. 
    Não nos compreendemos e isto nos assusta. Não somos compreendidos e isto nos perturba. Não compreendemos os outros e nos desesperamos. E o que acaba restando é um sem número de seres que, afoitos das respostas, mergulham nos abismos das certezas plenas, das respostas cheias de vazio para preencherem este vazio de não saberem quem exatamente são, a qual lugar pertencem. 
   Tais respostas, após a passagem de muitos nesta existência, acabaram por desenvolver sua própria natureza. Nascemos em um mundo onde as respostas nos esperam antes mesmo de sermos capazes de erguer certas perguntas, de forma que somos castrados daquilo que nos seria mais natural, mais pleno, o desejo de querer saber, de duvidar, de temer. 
   Um mundo de certezas nos põe em evidência para cada um de seus padrões previamente construídos. Define a felicidade, o amor, o medo. Declara um ideal a ser alcançado e para além dele não haveria vida. Poucos percebem este jogo sádico sem um algoz aparente. E pelo ordenamento somos expostos a cada dilema que persegue nossos tímidos avanços pelo império da dúvida, pelos caminhos à margem das certezas inquestionáveis que regem o mundo. 
   Sob a ideia do porto seguro proporcionado pelas certezas e projetos prontos de felicidade todos são convidados a viver um paraíso mas nossa natureza, pecaminosa ou autêntica (fico com a segunda palavra), faz com todos nós sejamos espíritos errantes que purgam nas chamas da dúvida mediante os decretos frios das certezas. Destas chamas confusas fluem os aromas doces ou putrefatos daquilo que a cada dia nos define, de maneira que, nos inserindo no tempo, buscamos nosso próprio tempo, construímos nossa identidade e ansiamos por encontrar nosso próprio lugar. 
  Sem saber exatamente por que, seguimos àquela sina arrebatadora. Enfrentamos cotidianamente as dores de parto de nossos renascimentos e a morte daquilo de nós que fica para trás a cada passo da jornada. Nossa verdadeira esperança é ter alento de que a primazia da dúvida nos confere um princípio de liberdade na construção de nossa própria identidade e lugar no mundo. Como uma deusa bondosa a Dúvida sempre nos estende as mãos e nos olha de forma terna. Para ela não há verdade, não há transgressão, não há ofensas, não há punição. Seus olhos estão voltados para seres em eterna construção. Em sua mãos o tempo se dissolve junto com as verdades e a vida da humanidade. Sabiamente, ela tão somente nos permite ser. 

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