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4 de mar de 2011

Balas de canela, essência e ilusão


Em meio à aparência e sabor das coisas, caímos em severas ilusões. 

"Tendo sempre as balas de canela nos bolsos das calças e mochilas, tive a curiosidade de ler suas embalagens em busca de informações sobre a fabricação e origem. Para minha surpresa, nas encantadoras balas de canela não havia um resquício sequer de canela. Em essência, eu consumia qualquer ciosa ali inserida, menos a canela.
(...) A verdade é que muitas vezes preferimos nos ater a mentira e ao prazer imediato. Quem é que não viveu ou não gosta de viver suas próprias ilusões? Decidimos, então, amassar e jogar fora a embalagem da deliciosa bala de canela - que nada tem de canela - , fechar nossos olhos e saborear sua ilusão nos amores, na família, no trabalho, na fé e na vida."
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Certo tempo atrás, me encantei ao parar em uma banca de jornais e encontrar à venda balas de canela. Eu sempre gostara de canela, seu cheiro e seu sabor tão marcante e único. Depois, disso, tão logo me tornei um assíduo consumidor daquelas deliciosas balas.
Tendo sempre as balas de canela nos bolsos das calças e mochilas, tive a curiosidade de ler suas embalagens em busca de informações sobre a fabricação e origem. Para minha surpresa, nas encantadoras balas de canela não havia um resquício sequer de canela. Em essência, eu consumia qualquer ciosa ali inserida, menos a canela.
Lembrando deste episódio, desde ontem fiquei a vislumbrar a essência das coisas que nos cercam. A vida, assim como as balas de canela, está tomando sabores e aparências que estão longe da essência de suas significações. Pode-se dizer que uma grande ilusão mascara e confunde o gosto real dos sentimentos, do prazer e da existência.
Creio que tudo isso se justifica pelo fato de estarmos desatentos demais às letras minúsculas das embalagens. Geralmente, não estamos dispostos a conhecer as coisas ou as pessoas, pois nos importa muito mais vivenciar o prazer proporcionado que uma relação de conhecimento e autonomia de nossas atitudes em busca de uma felicidade plena e constante.
Desta forma, observam-se amores que iniciam em beleza e transformam-se em amarguras, laços que unem-se e se rompem, destruindo consigo vidas. Tudo se deve à falta de tempo e até mesmo zelo por manter nossa caminhada pautada na reflexão e no olhar às coisas que realmente importam e que, por fim, apontam para a essência e para o que há de real em meio ao mundo de neon que nos rodeia.
A verdade é que muitas vezes preferimos nos ater a mentira e ao prazer imediato. Quem é que não viveu ou não gosta de viver suas próprias ilusões? Decidimos, então, amassar e jogar fora a embalagem da deliciosa bala de canela - que nada tem de canela - , fechar nossos olhos e saborear sua ilusão nos amores, na família, no trabalho, na fé e na vida.
E em nossa crença nas mentiras, somos hipnotizados pelas campanhas de marketing e consumo, passando a achar belo aquele falso mundo das grifes caras, das campanhas publicitárias de bancos, do poderes milagrosos dos comésticos que retardam nosso envelhecimento, da langerie ou pílula que salvará o casamento, das drogas que nos levarão ao extremos prazer, do álcool que resolverá todos os problemas, da religião que me tornará rico, próspero e sem problemas e, por fim, cremos nos recalques de nós mesmos, jamais admitindo nossos erros e aprendo com eles uma elevação na existência
Além de cairmos prostrados diante de ilusão que nos é posta pela sociedade, somos também capazes  - e como somos bons nisso - de criarmos nossas próprias verdades e lançá-las sobre nossos semelhantes. Desta forma, fingimos e transparecemos não ser egoístas, mentirosos, orgulhosos, imorais, invejosos e sujos em nossa essência.  E assim ferimos pessoas, destruímos e prejudicamos vidas, pois, cedo ou tarde, a verdade sobre o que somos advém como um vento impetuoso. Isso acontece quando não conseguimos mais sustentar nosso arcabouço de meias verdades e mentiras inteiras ou quando aqueles que nos cercam simplesmente leem nossa embalagem, se atentam para a essência que há em nós. 
E tudo isso me leva a perguntar quem sou. Será que sou o que sou em essência, ou seria uma amálgama de mentiras e falsas estruturas? Me pergunto se me apresento e me porto diante de meus semelhantes como alguém que sabe os rumos que trilha na existência  ou como um ser que vaga de vento em vento de absurdos e fantasias estranhas de um mundo perverso que caminha para a destruição e colapso.
Diante de tudo isso, elevo meus pensamentos à busca de uma vida mais intensa e real, medindo meus passos e perguntando meus porquês e minhas razões. Não quero que a vida ganhe o falso sabor de canela. Entre as balas de canela, a essência das coisas e as ilusões do percurso, desejo intensamente pela essência...

Escrito por Edward de A. Campanário Neto
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2 comentários:

Anônimo disse...

Adoro bala de canela e não sabia disso. Valeu a dica e a reflexão.

Anônimo disse...

Adoro bala de canela e não sabia disso. Valeu a dica e a reflexão.